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quinta-feira, 19 de abril de 2007

Indispensável


No trabalho, reclama-se por não ter a competência reconhecida, por não ser promovido, por não ter todo o potencial aproveitado, por não ser envolvido naquele projeto especial, pelas oportunidades perdidas. No dia seguinte, agradece por não ter que ir àquela reunião logo cedo, por não ter produto a entregar, por não estar viajando ao interior, por não ser indispensável e poder ficar em casa e paparicar o filho febril. Conclusão, enquanto não viabilizarem a clonagem humana no estilo "desenho-animado" é imperioso saber quais são as verdadeiras prioridades da vida.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Quem é o amigo do meu amigo?


Não é sempre, mas também não chega a ser tão rara as vezes com que me pego incomodado com os amigos dos meus amigos que não são meus amigos. Confuso? Esclareço: sabe aquele cara meio estranho, sem papo nenhum ou com papo demais que você encontra na casa do seu amigo? Pois é, é dele que eu estou falando. Conversando com algumas pessoas, verifiquei que esse incomodo é mais comum do eu pensava. A princípio achava que era implicância minha; algo como um ciúme inconsciente do amigo ou um egoísmo básico se revelando, mas com o passar do tempo percebi que há outro motivos por trás desse incomodo. Acabei desenvolvendo uma teoria para explicar o fenômeno que parte de três constatações

A primeira constatação é unanimidade entre os antropólogos e sociólogos: o homem é um ser gregário, que só é completo no convívio com outros homens (por favor, entendam homem como espécie e não
gênero, senão vocês desvirtuam minhas palavras). Decorre daí que a presença do outro é uma constante na vida humana e que algumas presenças acabam se intensificando, por razões diversas, e se transformando naquilo que definimos como amizades.

A segunda constatação é que os homens, além de gregários, são em si complexos, contraditórias e idiossincráticos, inclusive os nosso amigos. Não adianta se iludir, ninguém é coerente o tempo todo, todo o tempo. Vai explicar como é possível que aquele cara
ultra intelectualizado que recita os poetas parnasianos de cor ao mesmo tempo seja um zagueiro truculento nas peladas de terças e quintas à noite; que aquele especialista em RH, que persegue líderes empresariais com ofertas de empregos maravilhosas, não consiga arrumar uma diarista para sua própria casa; ou que aquele economista, que cuida das finanças de um grande empresa, simplesmente não consiga gerenciar sua própria conta corrente? Entenda: seus amigos, assim como o restante da humanidade, são cheios de diferentes facetas. Isto não tem nada a ver com loucura ou dupla personalidade, pelo contrário é até normal.

Por fim, a terceira é que amigos são únicos, ou melhor, cada amigo é único e singular. Observe bem o seu grupo de amigos e você verá claramente isto. Ninguém é
exatamente igual, apesar de alguns interesses em comuns. E mais, ninguém é exatamente igual para você, pois cada um possui papel diferenciado na sua vida. A verdade é que atribuímos papéis diferentes para cada um dos nossos amigos. Não é raro termos amigos para cada espaço de nossas vidas, mas mesmo entre aqueles que dividem os mesmos espaços físicos (trabalho, casa, cancha de bocha, mesa de bar etc) cada um possui um papel diferenciado na dinâmica do grupo. E aqui, permita-me um parênteses, eu realmente estou falando de amigos verdadeiros, não estou falando de colegas ou conhecidos simpáticos. Eu me referi a pessoas realmente queridas e importantes.

A condição gregária, a natureza complexa e idiossincrática e a atribuição de papéis e espaços aos amigos é o combustível que alimenta aquele incomodo que temos dos amigos dos nossos amigos. E por que? Porque é conhecendo o amigo do nosso amigo que nos confrontamos com o lado contraditório do nosso amigo, e é isso que realmente incomoda. E incomoda basicamente porque seus amigos são o atestado vivo de quem é você, são, em outras palavras, os fiadores de suas qualidades. O que acontece conosco quando quem nos define é alguém cheio de facetas? Afinal, "
diga-me com quem andas e eu te direi quem és" talvez não seja algo tão certo assim.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Futuro, Presente e Passado


Muita gente recorre a videntes das mais diversas categorias para saber do futuro. Em que pese a picaretagem recorrente entre os tais "profissionais", a intenção dos consumidores desse tipo de serviço, invariavelmente, é descobrir se no futuro vão ser mais ricos, mais amados, mais bem-sucedidos, enfim, querem saber se serão ou não mais felizes no futuro. Ou pelo menos, querem ouvir isso de alguém. No fundo, as pessoas procuram por aquele reconfortante sentimento de que há um propósito pelo sacrifício contemporâneo, pela dor, pelas privações, pelo sofrimento, pelo dormir tarde, pelo acordar cedo etc. O danado é que com a cabeça no futuro acaba-se perdendo o presente e aquele futuro nunca se concretiza. Hoje tive uma experiência inversa. Vi o meu passado. Mas o vi de forma absurdamente clara e não da forma romântica, permissiva e condescendente que olhamos para o nosso próprio passado. Talvez tenha sido o sono da segunda-feira pela manhã, talvez tenha sido o fato de ter corrido 5 km com apenas um copo de iogurte nas última 9 horas, mas o que importa é que vi o meu passado como se fosse a história de uma outra pessoa. Acho que por isso descobri algo sensacional: eu vivo no futuro das videntes e cartomantes, isto é, vivo naquele futuro bom. Mesmo sem nunca ter investido um centavo na quiromancia, tive a certeza absoluta que eu vivo no meu futuro. Essa descoberta acabou me enchendo de uma sensação muito agradável: eu estou credor na contabilidade da vida, saldo positivo. Hoje é um ótimo dia para realizar lucros. Sensação legal. Adorei viver no futuro. E aí, ‘quer ler a sorte’?

sexta-feira, 30 de março de 2007

(In)Satisfação


O danado do ser humano é um bichinho insatisfeito por natureza. Não que seja ruim ser insatisfeito. Canalizada, adequadamente, a insatisfação nos move para melhores dias, mas convenhamos ser insatisfeito é um calvário. Às vezes dá uma inveja louco daqueles monges budistas que vivem meditando em total harmonia com si mesmos e com tudo o que lhes cerca. Tudo tão belo, tudo tão certo. Então, a gente - exemplar típico do mortal não iluminado - bebe uma cerveja na temperatura certa, come uma pedaço de picanha ao ponto, saboreia um mousse de chocolate na consistência perfeita e conclui o almoço com uma siesta de 30 minutos. Coisas completamente alheias ao pobre monge! Pois é, ces't la vie!

quarta-feira, 28 de março de 2007

O inferno são os outros?



Sim meus caríssimo, o inferno são os outros, mas o pecador somos nós.

Ontem, o Presidente da República afirmou que a culpa pela crise nos aeroportos é responsabilidade dos governos que o antecederam. Nas palavras do chefe: "Os outros não fizeram aquilo que deveriam ter feito ao longo de anos". O desabafo presidencial me fez lembrar do Sr. Jean-Paul Charles Aymard Sartre (1905-1980), de fato "o inferno são os outros".

A filosofia de Sartre apregoa que o universo é composto de dois tipos de seres; o seres Em-si e os seres Para-si. Resumidamente os seres Em-si. possuem uma essência definida, não possuindo potencialidades nem consciência de si ou do mundo. O ser Em-si apenas é. Já os serem Para-si, e aí estão incluídos todos os homens e mulheres, não têm uma essência definida, definindo e redefinindo a cada momento sua essência. Cada pessoa só tem como essência imutável, aquilo que já viveu, o pretérito. Em outras palavras, eu e você somos neste momento aquilo que fizemos, aquilo que passou. Porém, nada nos impede de sermos algo diferente no momento seguinte, isto é podemos a cada segundo, ou melhor a cada decisão e escolha mudar a nossa essência. Por isso, Sartre atribuía a cada ser Para-si a incondicional liberdade de fazer de si o que quiser.

Isso significa que cada pessoa pode a cada momento escolher o que fará de sua vida, sem que haja um destino previamente concebido. Somos portanto produtos de nossas escolhas. E mais o mundo é produto de nossas próprias escolhas. Sartre afirma que todos os seres Para-si se orientam fundamentalmente para um projeto específico: a auto-realização. Isto é, o ser Para-si sonha em ser uma pessoa que já realizou todas as suas potencialidades, todos os seus projetos. Ao realizar tudo o que podia o ser Para-si esgota suas potencialidades, tornando-se um ser Em-si, mas sem abandonar a consciência de nós mesmo e do mundo, tornando-se um ser em-si e para-si.

Obviamente, qualquer ser Para-si tem que enfrentar uma série de limitações e contingências para atingir o projeto fundamental. Essas limitações e contingências, no entanto, não podem ser entendidas como uma restrição à liberdade. Ao contrário, para Sartre as limitações impõe ao ser alternativas a cada um e cada um é livre para escolher dentre as alternativas a sua. A verdadeira liberdade não é fazer qualquer coisa, mas é escolher fazer qualquer coisa. Entendida assim, a liberdade é uma condição inalienável de todo ser Para-si.

A liberdade é acompanhada de responsabilidade. Cada escolha possui repercussão e é responsabilidade de quem escolheu. Uma vez que as repercussões das escolhas individuais interferem de forma irrevogável no mundo, cada indivíduo é responsável por todo o mundo. A consciência da responsabilidade acaba por trazer a todo ser Para-si o sentimento de angústia. Para fugir da angústia o ser Para-si acaba recorrendo a má-fe. Isto é, ele renuncia à própria liberdade, fazendo escolhas que o afasta do projeto fundamental e atribuindo conformadamente estas escolhas a fatores externos, ao destino, a Deus, aos astros e aos outros.

Caríssimo leitores, é claro que os outros interferem e provocam mudanças no mundo, alterando a disposição das alternativas que se apresentam a nós em nosso exercício de liberdade. Porém, ainda somos nós os responsáveis pelas escolhas que fazemos. Sabe aquela estória da limonada e dos limões, pois é. Se o inferno são os outros, é porque é através do olhar do outro que compreendemos e tomamos consciência de nossas próprias escolhas e de suas repercussões. Aconselho o chefe, na próxima viagem, a fazer um passeio pelos saguões dos aeroportos brasileiros, acho que ele vai se entender melhor.