
Hoje é Dia dos Pais. Na nossa tradição judaica-cristã, embora o machismo predomine, o patriarcado perde em prestígio para o matriarcado. Afinal de contas, mãe só tem uma, já pai parece ser outra conversa, veja, por exemplo, o caso de Jesus.
Tudo bem que ser mãe é padecer no paraíso, mas ser pai também não é tarefa fácil, embora seja igualmente recompensador. Embora não pareça possível a nós, pais, competir com todo um marketing secular que construiu uma figura materna de acolhimento, compreensão e cumplicidade, sinto que há algum tempo ganhamos alguma credibilidade no tema. E isso é certamente muito bom, embora às vezes a coisa fique complicada para nós.
Para ilustrar o caso lembro-me de uma situação que acontecia lá em casa de vez enquanto quando era criança. Eu e minhas irmãs constumávamos a aprontar muito durante a tarde. Aprontar aqui assume vários significados, sendo o mais usual o conflito físico de grau fraternal e o assédio moral do tipo bullying doméstico. Em outras palavras, podemos dizer que o bicho pegava no apartamento 406 do bloco G da 105 norte e a única tipos de argumento que funcionava para chegarmos a uma tregua era a clássica declaração: chega de brigas ou eu vou contar tudo para o seu pai quando ele chegar. Como um milagre a paz e a harmonia voltava ao lar, pelo menos por uns 30 minutos. O suficiente para que quando o velho voltasse para casa a ameaça de delação não se concretizasse. Contudo, em algumas vezes as ocorrências acabavam chegando ao ouvidos do pai uns 10 segundos após a chave da porta dar a segunda volta na fechadura.
- Paiê, o Fabiano fez isso e aquilo e aquilo outro...
- Mas paiê, ela disse isso, aquilo e depois vez isso e isso e isso...
- Paiê...
- Pai, olha só...
...
Meu pai olhava pra gente e dizia:
- Peraí! Esperem um momento que o delegado vai entrar em casa, tomar um banho e começar a tomar os depoimentos...
O banho era seguido do lanche da noite (lá em casa não tinhamos hábito de jantar, mas lanchavamos durante a noite toda). E durante o lanche meu pai ia tomando conhecimento dos fatos e dando conselhos e recomendações a todos. Nunca chegou a nos bater e nem nos ameçava de fazê-lo. Depois de tudo resolvido, contava algum causo bem interessante sobre alguém da cidade natal dele que tinha feito algo semelhante o que nós tínhamos feito e do resultado daquela experiência.
Pois bem, o delegado sempre foi gente boa e muito bom contador de causos.
Aqui fica registrado a minha homenagem ao meu pai, que nunca precisou ser durão para ser respeitado e que me ensinou a ser homem e pai de verdade. Ele só não me ensinou a ser paciente como ele é.
E ao meus amigos que já são pais e para aqueles que ainda são só filhos, um feliz dia dos pais para todos!